“O Olhar , o trânsito, o deslocamento, o movimento, a obra, o espectador, a cidade, a janela, o projeto, a viagem, o percurso, a divagação, o olhar atento, o olhar distraído, uma pausa, uma passagem para o olhar. No cruzamento destes vários termos colocados em jogo pelas obras que integram o projeto Arte no Ônibus, o espaço da arte e o espaço cotidiano se misturam, se fundem. As obras propõem o olhar, o ver; propõem um mergulho investigativo nas imagens produzidas pelos artistas. Trata-se de pensar o espaço do ônibus como um espaço expositivo em trânsito. As obras se referem a espaços de viagem: a linha do trem, o aeroporto; são recortes e colagens que recombinam as coisas e alteram a paisagem. Põem em jogo a questão da memória dos lugares, a questão do transito por estes espaços e a questão da vida deles. Chamam a atenção para o movimento, o fluxo, a transitoriedade, o ritmo intenso da vida cotidiana. Apropriam-se de imagens da cidade. Discutem, a partir disso, a fragmentação e o excesso de informações presente na paisagem urbana. São colagens que constroem situações de estranhamento, a traduzir um modo subjetivo e próprio de perceber o espaço e refletir sobre ele. São imagens que colocam em questão o contraste entre a cidade que se imagina e a cidade que se constrói; revelam, enfim, o hiato que existe entre a cidade que se sonha e a cidade tal qual é. São imagens que, de modo sutil, revelam aspectos os quais, de tão presentes, tornam-se quase invisíveis dado sua banalidade ou caráter corriqueiro. Enfim, são múltiplos caminhos e modos de apreender as coisas e construir olhares; olhares que se refazem na relação do espectador com a obra, a cada dia, a cada trajeto, a cada passagem, a cada ponto. Trata-se de uma estratégia contemporânea de colocar a obra em transito ou em movimento, situá-la junto ao fluxo da vida e aproximá-la, deste modo, dos que transitam pelos espaços da cidade.”

João Virmondes / Artes Visuais
virmondesjoao@bol.com.br

 

“Para selecionar os poemas do Arte no Ônibus busquei poéticas relacionadas com o cotidiano da vida urbana: a mãe que passeia com o carrinho de bebê, o vento que balança o filtro dos sonhos, o efeito do pinho-sol e a luta do coração. Também busquei poéticas que tratassem com humor os elementos da vida, as quais parecem falar diretamente para os passageiros do ônibus, tais como: o alerta para o cidadão de sua condição passageira não só dentro daquele veículo, ou que dentro da lotação deste veículo ele se encontra de b a z e também aquele que busca por todos os lados e ao final percebe que é ali mesmo seu lugar. O tema clássico do amor é tratado às avessas, a nuvem de grafite impede que seja revisto o nome de um amor findado. Há ainda um poema que apresenta a metalinguagem, versando sobre a qualidade que as palavras têm para rimar. Acredito que no mundo da poesia nem tudo é tão simples. Então, através deste projeto, deixamos que o povo desvende o enigma do olhar.”